Vocês têm relógio, nós temos tempo

O tempo

Foto de Sippeangelo, via Flickr

Ou sobre porque eu parei de usar velocímetro.

Quando, quase dois anos atrás, eu decidi que não teria mais carro, muito embora sempre tivesse paixão por automóveis, eu pensava exclusivamente em minha contribuição para o trânsito na cidade. O que eu não sabia era que, com essa decisão, recuperei também minha qualidade de vida. Se antes eu vivia pensando em como a vida seria mais fácil se tivesse um carro, depois dessa decisão, passei a encontrar as vantagens de caminhar e usar transporte público.

Ler o jornal ou um livro, ver uma série ou um vídeo, perceber o entorno. Conhecer melhor a cidade. E, principalmente, passei a olhar menos para o relógio e mais para a vida. Se você dirige, sabe que metade do tempo ficamos olhando para o velocímetro e a outra metade para o relógio, tentando calcular o tempo que levaremos e se vamos chegar atrasados. O trânsito, e os congestionamentos, em São Paulo, são mutáveis e a única certeza é chegar atrasado – só não sabemos quanto.

Pedalando na Paulista

Foto de Laura Sobenes

Mas a locomoção de transporte público e a pé também tem seus problemas. O metrô é muito legal, porque você chega rápido e com razoável conforto. Mas você fica preso dentro de um caixote de metal dentro de um túnel escuro. Se o ônibus permite que vejamos as ruas, o conforto e a pontualidade também estão à mercê do trânsito. E caminhar é muito bom, porque você tem a possibilidade de ver as pessoas, o comércio, a cidade. Mas nem sempre é prático devido às distâncias que precisamos percorrer.

Foi quando passei a pedalar para os lugares e, veja só, usufruir tanto da velocidade (numa escala humana) quanto da cidade. Foi o casamento perfeito, ainda mais porque um dos superpoderes ciclísticos é a pontualidade. Mas, depois de uns meses, vendo que todo mundo usava uma espécie de velocímetro na bike, chamado ciclocomputador, instalei também na minha magrela.

Pois foi começar a usar e voltar a encanar com as pequenas questões. Será que eu alcanço os 35 km/h? Será que dá pra manter uns 20 km/h de média? Qual o máximo que eu consigo chegar? É, não deu muito certo. Tanto é que eu abandonei a maquininha e resolvi ficar sem saber.

Toco conheceu um tuaregue que havia deixado o Saara e vivido – muito bem – na Europa. Apesar do que teria sido considerado um sucesso pela maioria de nós, ele resolveu voltar ao deserto e ao antigo modo de vida. Toco perguntou a razão. Ele respondeu: “Vocês têm relógio, nós temos tempo”.  Trecho da coluna de Eliane Brum, sobre depressão e a doença da pressa.

Quando coloquei o ciclocomputador, perdi meu tempo e passei a usar algo externo a mim. Outro dia eu cheguei no trabalho e uma colega comentou que me viu na Av. Paulista, me ultrapassando algumas vezes com seu carro. Ela disse: “pô, eu lá, superpreocupada em chegar atrasada, e o trânsito que não andava, e você lá, sorrindo e cabelos ao vento, como se não houvesse mais nada no mundo.”

Casamento do Willian Cruz

Casamento do Willian Cruz. Foto do @luddista

No início de 2009, li um livro chamado “Devagar“, sobre os movimentos “Slow” e nossa relação com o mundo. Foi mais um passo natransformação de uma pessoa ansiosa (yo!) em alguém mais tranquilo e em paz consigo mesmo. Outra parte importante foi o uso da bicicleta no dia a dia. Inicialmente uma decisão em prol de um mundo melhor, tornou-se uma decisão muito mais simples: eu pedalo porque me faz feliz. Eu pedalo porque é divertido, porque é mais conveniente. Eu pedalo porque pedalo.

Nesta coluna (cujo trecho já citei logo acima), Eliane Brum discute sobre os “tempos modernos”, sobre esse tempo externo a nós e a emergência de uma epidemia de depressão no mundo. Além de valer a leitura, ficou a vontade de ler o livro que ela resenha, “O tempo e o cão”, de Maria Rita Kehl. Porque quando trocamos nossa relação doentia com o relógio por uma mais saudável, de aceitação de nosso próprio tempo, vivemos mais felizes, e acabamos imprimindo uma pegada mais leve, mas não menos significativa no mundo.

Mais: O depressivo na contramão. (dica do @danielsantini)

Parábola da bicicleta (via @vmambrini)

You don’t have to ride your bike (via eu mesmo)

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Comments
15 Responses to “Vocês têm relógio, nós temos tempo”
  1. Joana Rocha says:

    Texto genial! “e você lá, sorrindo e cabelos ao vento, como se não houvesse mais nada no mundo.” Isso é muito gratificante. Sabe, eu perdi meu ciclocomputador e sabe que não estou sentindo nenhuma falta dele?!!!!

    Beijos

  2. leonardo says:

    putz, ainda bem que lí isso a tempo… eu tava quase pra comprar um ciclo também, mas agora vejo que eu ia começar a fazer as mesmas coisas que fazia quando andava de carro, um olho no relógio outro no velocimetro kkk

  3. claudio says:

    Eu me saio muito bem com os ciclocomputadores, sem nenhuma neura como essas que vc relatou !!

  4. Nelson says:

    Muito bom!
    Afinal saber a hora certa a cada minuto não faz ninguém ter mais tempo!

  5. Milena says:

    Muito bom!

    Adorei minha pequena e repercutida participação em seu texto, rs..

    Realmente aquele dia você me fez pensar. Era muito contrastante a cena!

  6. Engraçado. Eu tenho usado o ciclocomputador justamente para diminuir a minha velocidade… meu objetivo está sendo chegar cada vez num tempo um pouco maior, pra chegar menos suado, haha. Fora que é bom para medir a quilometragem da bike.

  7. malu villela says:

    muito bom! acabo de voltar de um lugar sem carros, relógio, energia elétrica ou microondas. cheguei flutuando nessa cidade que parou no tempo. consigo captar tudo como uma esponja… é curioso e fascinante. até quando isso vai durar? o tempo está em pauta e não a falta dele. um bom ano para todos!

  8. Carol says:

    Muito interessante! Se mais pessoas quisessem agir assim….

  9. Janayde Gonçalves says:

    voce expressou simplesmente tudo que tenho sentido sobre minha relação com Sônia, minha bike, sobre o Slowmovement em minha vida, sobre meu olhar para o amanhã. Lindo texto.

  10. Vovo says:

    Bom, muito bom mesmo, adorei, mas…, apenas um pequeno detalhe, que tal as bicicletas obedecerem aos regulamentos de transito? acham besteiras? vc´s já foram atropelados por uma e sofreram fratura exposta?

  11. Salve Vitor. Belíssimo relato. Cheguei até aqui por uma dica de uma amigão, o Ulisses Adirt, professor de história, de dança e ciclista aí de Sampa.

    Eu quase fui “cicloativado” em definitivo no ano passado, mas acabei por ser fisgado de volta pelo carro. Frases como “passei a olhar menos para o relógio e mais para a vida” são a mais pura realidade e a bicicleta nos traz este maravilhoso insight. Uma conquista daquele tempo, e que permanece, é este olhar mais lento, de fazer as coisas com mais envolvimento e não somente porque precisam ser feitas… O mundo à minha volta que às vezes teima em não entender esta estranha calma que se apoderou de mim.

    Sobre a bicicleta, entretanto, te aviso: o carro não ganhou não! Ainda venceremos (eu e a magrela) esta batalha! Aqui em Araranguá não temos os problemas de trânsito aí de São Paulo, então minhas motivações principais para a mudança são a preocupação ambiental e a saúde, o bem-estar, o estilo de vida.

    Participo de uma iniciativa chamada Coolmeia, Ideias em Cooperação e, depois de navegar bastante por aqui (boa parte deste domingo pela manhã foi passado navegando pelos teus posts), tenho convicção de que você seria uma pessoa muito importante dentro do projeto, teria MUITO com o que colaborar. Se quiseres conhecer-nos, acesse http://www.coolmeia.org e depois entre em contato comigo ou com o movimento.

    Um abraço e foi uma delícia ter conhecido seu blog na manhã de hoje.

  12. Vovo,
    Entendo que muitos ciclistas desrespeitam os demais presentes no trânsito, mas não creio que seja exclusividade desse modal. Mais ainda, não acho que seja relevante para esse texto, não é?

  13. Rafael, legal o seu comentário. Dei uma olhada no Coolmeia, mas acho que vc precisa explicar um pouco melhor pra eu entender como posso colaborar. Mande um e-mail para mim no vitor arroba nossoquintal.org

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  1. […] Se você quer saber mais, na Wikipedia existem muitos argumentos contra e a favor sobre o uso do capacete. Qualquer que seja sua escolha, ela será sua escolha e não deve ser imposta por ninguém, nem por mim nem por legisladores. Quer usar o capacete, use. Não quer, não use. O que importa mesmo é que você pedale, divirta-se, curta a cidade e o caminho. […]

  2. […] Mas uma foto muito recente teve papel muito parecido no movimento por cidades mais humanas – e mais cicláveis. Talvez você não a conheça, porque a partir dela milhares de fotos, ou talvez mais, foram feitas com o mesmo conceito. É esta foto aí ao lado, simples, de uma garota começando a pedalar no momento em que o semáforo muda do vermelho para o verde. Esta foto, específica e espontânea, deu origem ao movimento Cycle Chic, retratando inicialmente as ruas de Copenhague, e logo se espalhando por diversas cidades no mundo, inclusive São Paulo e Curitiba. Se você acompanha este blog, sabe que eu também sou adepto do movimento. […]



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