Reflexões sobre a experiência de quase-morte

Foto cortesia de Polly Rosa

Foto cortesia de Polly Rosa

Como eu falei aqui, resolvi escrever dois posts sobre meu encontro com o ônibus da viação Tranppass.  Já se vão quase dois meses e ainda não pedalo como antes, em parte porque minha bike ainda não foi consertada (estou esperando sair a grana do seguro), em parte porque pedalar a bike dos outros não é a mesma coisa. Mas vamos às reflexões.

Uma das questões que costumam passar despercebidas quando esse tipo de “acidente” acontece é a culpabilização da vítima. Pessoas que te amam, e querem seu bem, dizem coisas como “será que você precisa mostrar sua ideologia assim?” ou “é perigoso pedalar nas ruas, deixe pra ir de outro jeito”. Isso aconteceu quando a Márcia foi atropelada na Paulista (o assassino foi denunciado pelo MP, por sinal) , e eu já escrevi sobre minha reação na época.

Essas pessoas querem que você fique bem e, como não podem controlar o outro, o psicopata atrás do volante, pedem que você deixe de fazer o que acredita. A isso tive uma resposta simples: quantas vezes você já foi assaltado no farol, dentro do seu carro? Quantas vezes já apontaram uma arma para você? Tenho um primo que sofreu dois sequestros relâmpagos, com direito a tiro pela janela e ser abandonado em Ribeirão Pires. Alguém disse para ele parar de dirigir automóveis? Pois bem, eu digo o mesmo.  Não é porque corremos riscos – embora eu não os corra à toa – que devemos parar de fazer aquilo que acreditamos ser certo. Pior, esse meu primo nem sequer acredita estar fazendo algo importante ao dirigir um carro. Ele só dirige. Eu só pedalo – com tudo o que isso provoca.

Aí, vêm o outro tipo de acusação, de quem não te conhece e diz que você “não deveria estar no meio da rua”.  “Quem mandou ficar no caminho” e outras coisas parecidas.  Sério? 8 toneladas contra 75 quilos e sou eu o errado? Ainda mais quando a lei me protege? Ok, só porque é legal não significa que eu deva me arriscar, mas vejam o absurdo do argumento! Pessoas que estavam dentro do ônibus me acusaram de estar no caminho. Ficaram irritadas por eu estar atrapalhando o “trânsito” delas. Ninguém, das 30 pessoas dentro do ônibus, sequer perguntou se eu estava bem. Eu estava sangrando, minha bicicleta embaixo do ônibus e, quando fui ver suas condições, uma senhora, que estava atrás do cobrador, desceu para me acusar de ter “mexido na bicicleta”. Onde foi parar a solidariedade humana? Somos mesmo obstáculos, não?

O que me leva ao próximo ponto: não adianta você estar correto quando o outro é maior que você. É triste, mas é uma grande verdade. Eu posso estar fazendo tudo exatamente como manda a lei e as regras para a segurança de todos os envolvidos (e eu estava!), mas quando o outro veículo tem 8 toneladas e é guiado por alguém que não está preocupado com a vida alheia, de nada adianta esse esforço. O motorista simplesmente encarou minha segurança com leviandade.

Para resumir, o sistema, como é, não funciona. As pessoas não cobram a mudança e, muitas vezes, nem mesmo percebem que ele precisa mudar. Nessas horas eu me sinto sobrecarregado, assim como deve se sentir você, leitor que faz o possível por uma realidade melhor. Cada pessoa que deixa de fazer sua parte, obriga quem faz a trabalhar dobrado.

Mas a solidariedade humana existe sim. Só que, para que ela apareça, é preciso que as pessoas saiam da escala do automóvel e voltem à escala humana. É preciso que elas parem para olhar  e se reconheçam no outro. Uma palestra no TED fala justamente sobre isso. Confira neste link (com legendas em português).

De qualquer maneira, eu, a vítima da situação (neste caso), me senti culpado por estar numa situação de risco. Pensei em quem eu amava e imaginei quanto se preocupavam. Mas depois de muito refletir, escolhi minha posição e repito aquilo que disse quando a Márcia foi atropelada:

Não vou parar de pedalar. Muito menos pararei de lutar por esse mundo melhor. Porque eu quero construir um lugar em que as pessoas que eu amo possam andar e pedalar pelas ruas sem que eu tema por suas vidas. E só nesse dia eu vou descansar.

Espero que você, leitor, também não pare nunca de “pedalar” porque os outros não agem de maneira correta. Afinal, importante é não desistir.

Comments
5 Responses to “Reflexões sobre a experiência de quase-morte”
  1. José Baronio says:

    Cara, sinto muito pelo que houve com você. É foda.

    Mas veja bem, essa falta de respeito felizmente não existe em todos os lugares (falando de Brasil). Aqui na minha cidade (São Leopoldo/RS), por duas vezes quase fui atropelado por ônibus. Em ambas as ocasiões, contatei as empresas e forneci dados como prefixo do ônibus, hora e local do incidente.

    Eis que as empresas contataram os motoristas e os enviaram pra ‘cursos de reciclagem’. Ao menos foi o que me informaram.

    Ou seja, embora pouca, há a preocupação com pedestres e ciclistas.

    Abraço!

  2. Vitor Leal says:

    José,
    Aqui isso tb ocorre. Eu me pergunto o que são esses cursos de reciclagem. O problema, pra mim, é que você quase foi atropelado duas vezes por ônibus. Basta um atropelamento real pra vc não estar mais aqui pra comentar, não é? Essa é a grande falta de respeito. À vida.

  3. Antônio says:

    Sou motorista profissional,vivo nessa profissão há 35 anos.Trabalho todos os dias,até esse momento nunca atropelei um ciclista e não foi por falta de oportunidade,o que esses caras que pedalam desrespeitam as regras mínimas de segurança no transito não é brincadeira.Sei que não é o seu caso mas que tem muito ciclista abusado têm…
    Penso que a criação de ciclovias(obrigatórias) em todas as cidades com mais de dois habitantes já seria um bom começo.Na verdade eu não sei muito o que fazer para o ciclista ter segurança nas ruas das cidades acredito que se eles comessassem a quebrar uns retrovisores quem sabe…com o tempo…

  4. Vitor Leal says:

    Antônio,
    É bom ouvir o seu lado. Bom pq vc trabalha há 35 anos e nunca teve um acidente, ainda que em alguns momentos isso pudesse ter acontecido. Acredito que só com o diálogo podemos chegar a pontos comuns, então aqui vai:

    – Infelizmente você tem razão, muitos ciclistas se arriscam no trânsito. Mas o que acontece é que são pessoas de muito pouca instrução, a maioria não tem sequer carteira de habilitação para saber as regras de circulação. Além disso, sabemos que antigamente era “recomendado” andar na contramão, fato que hoje não o é. Muitos policiais ainda dizem para fazer isso e, se não existir sinalização específica, é algo bastante perigoso.

    – Esse desrespeito às regras se deve a essa falta de educação para o trânsito. Esse tipo de ciclista geralmente não conhece seus direitos e deveres e simplesmente faz o que mandam ele fazer. Se vc notar, cada pessoa diz uma coisa. Pedale na calçada, pedale na rua, pedale na direita, esquerda, contramão.

    – É por isso mesmo que motoristas treinados, como é o seu caso, devem proteger essas pessoas. Primeiro pela diferença de tamanho (8 ton contra 70 kg). Está no CTB: o maior protege o menor. Segundo pq aquele que tem o conhecimento deve ajudar quem não tem.

    – Quanto às ciclovias, embora eu acredite que elas fazem parte da solução, não são a única resposta. Existem ciclofaixas, faixas compartilhas e, acima de tudo, educação. Tanto para o motorista quanto para o ciclista. Mas isso só acontecerá quando o poder público reconhecer a presença da bicicleta e começar a agir para protegê-la. Ciclovias, na maioria dos lugares aqui no Brasil, são mal resolvidas, atrapalham o modo como o ciclista pedala e fazem com que o motorista o mande “para a ciclovia”, ainda que ela não o leve para onde ele vai. Além disso, assim como as passarelas, muitas vezes só servem para tirar os ciclistas do caminho dos carros. Isso não funciona e só piora a cidade. A ciclovia da Radial é um exemplo de ciclovia bem empregada.

    – Sobre os retrovisores, eu não vou dizer que não tem vezes em que eu quero fazer isso, mas esse tipo de antagonismo só vai acirrar a guerra urbana, assim como aconteceu com os motoboys. É preciso colocar os motoristas do nosso lado não do lado oposto. Precisamos aliar forças por uma cidade melhor e não criar mais conflito. Pedalar é um ato humano.

  5. Antônio says:

    Sobre os retrovisores você está certo,concordo com o seu argumento.Quando eu falo em ciclovias imagino na verdade faixas (muitas para todo o lado) que delimitem um espaço onde o ciclista possa transitar sem correr tantos riscos, mas já imagino que não seriam respeitadas assim como acontece com as faixas de travessia para pedestres;às vezes,quando percebo um pedestre aguardando para atravessar na faixa, paro para dar a preferência e o motorista do veículo que está atrás fica muito irritado,será que ele pensa que a faixa é para o pedestre atravessar apenas quando não vem vindo nenhum veículo? Se assim fosse para que pintar as faixas…? Tudo,como você disse, é uma questão de educação e como educar leva tempo vamos esperar que o poder público use os dinheiros das multas(que não é pouco)para financiar campanhas educativas sobre o trânsito que, aliás, já deveria começar na pré-escola e terminar na faculdade.

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