Infra-estrutura gera demanda ou porque a Nova Marginal não vai resolver o trânsito

Marginal

O deserto da Marginal. Cortesia do Ecourbana.

Talvez você more em São Paulo, ou próximo à capital, e saiba da obra faraônica de ampliação da Marginal Tietê. Se não sabe, pode ficar sabendo mais aqui, aqui e aqui. Talvez você conheça de perto a dificuldade de locomoção pela cidade. Talvez você pense que é preciso mesmo terminar o Rodoanel, ou que se fizermos mais pistas expressas e pontes, o trânsito fluirá melhor. Talvez você esteja errado.

Para explicar porque, preciso explicar algumas coisas. Existe uma teoria de um cientista russo que diz que uma das maneiras de resolver um problema é justamente fazer o contrário do que parece lógico. Não sei qual é a explicação que ele deu pra isso, mas do modo como eu vejo, isso tem a ver com nossa capacidade limitada de perceber os problemas. O que acontece, muitas vezes, é que os sistemas com que lidamos, como o de transportes ou o clima do planeta, são muito complexos e possuem mais variáveis do que podemos lidar. Assim, tendemos à simplificação e, dessa maneira, deixamos de lado questões importantes, que influenciam o todo de maneira inesperada.

Basicamente, ao olhar para o problema do trânsito, vemos o funil das vias. Então, a solução óbvia é aumentar a infra-estrutura viária. Exceto que isso não funciona, porque logo, motoristas que pegavam caminhos alternativos ou meios de transporte alternativos passarão a utilizar aquela via para chegar onde querem. Pode ser que novas pessoas comprem carros justamente por terem onde estacioná-los e dirigi-los, e consequentemente, teremos mais congestionamentos e, enfim, mais obras serão necessárias. Em outros casos, estamos ligando um congestionamento ao outro de forma mais eficiente. Será que deu pra entender até onde vai isso?

Mill Ends Park - Cortesia de atul666 via Flickr

Mill Ends Park - Cortesia de atul666 via Flickr

Anos atrás, a prefeitura de São Bernardo do Campo, notando o trânsito na região do Paço Municipal, tirou uma lasca das praças do entorno e colocou mais uma pista para os veículos. O trânsito ficou melhor, mas logo voltou a ficar ruim. Num lugar pequeno como aquele, ficava claro que não era possível fazer isso indefinidamente. Extrapolando no tempo, acabaríamos competindo com Portland (EUA) pelo menor parque do mundo.

Infraestrutura gera demanda. Se você abre uma nova via, em breve as pessoas começam a ir até esse lugar. Aconteceu em Buenos Aires, no Puerto Madeiro, aconteceu em Curitiba, com a rua XV de Novembro. Aconteceu em São Paulo, na Paulista! Com a reforma das calçadas, o fluxo de pessoas aumentou 15% em 6 meses. Não é pouca coisa, são 1,2 milhão de pessoas todos os dias caminhando, patinando, andando de skate.

De fato, nem estamos falando em gerar demanda. O que existe é uma demanda reprimida pela falta de infraestrutura. Com o IPI reduzido e a indústria automobilística em seu melhor ano, para onde você acha que irão os carros novos vendidos todos os meses? A reforma da marginal e tantas outras obras, como os túneis que serão construídos pela cidade, acabam incentivando o uso do transporte individual motorizado e deslocamentos desnecessários.  Sem falar em bairros mal projetados, em que é necessário pegar o carro ou um ônibus para comprar pão pela manhã </Alto de Pinheiros>. Eu não sei você, mas se eu tivesse que tirar meu carro hipotético da garagem para comprar pão, não seria um lugar bom de se viver.

Imagem cortesia de uloo via Flickr

Imagem cortesia de uloo via Flickr

As questões do trânsito e da mobilidade urbana passa por duas questões que dificilmente são levadas em consideração: o que são as cidades e o que queremos delas.

Você pode me dizer que cidades são lugares em que as pessoas vivem, realizam trocas e afins. Mas aí, olhamos para o que são as cidades em que vivemos e percebemos que elas são, na prática, grandes corredores de asfalto, por onde as pessoas precisam se deslocar rapidamente. Isso nos leva à segunda pergunta: é em uma cidade assim que você quer viver? Ou você quer viver em um lugar arborizado, com parques, onde você possa apreciar seus deslocamentos e conviver com outras pessoas?

Para você, a cidade é para as pessoas ou para os automóveis?

Comments
3 Responses to “Infra-estrutura gera demanda ou porque a Nova Marginal não vai resolver o trânsito”
  1. s. says:

    O paradoxo de Braess também ajuda a explicar por que capacidade gera demanda.🙂

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