O sentido das coisas

Foto cortesia de BenSpark via Flickr

Foto cortesia de BenSpark via Flickr

O post da Jeanne sobre o Moon Cup teve um grande sucesso. Graças a um link no blog da Época Negócios, tivemos mais de 10 mil acessos em um só dia. Isso me fez pensar: por que um post sobre um coletor menstrual deu tanto o que falar entre tantos assuntos polêmicos que já cobrimos aqui no blog. O mais engraçado é que fazia tempo que eu queria escrever algo sobre esses produtos mas, por uma limitação fisiológica, nunca pude testar o tal copinho.

Toda vez que eu propunha a alguma mulher testar o bichinho, recebia olhares assustados, desconfiados e até mesmo enojados. Afora o efeito “creepy” de um cara falando sobre menstruação, eu sentia que a rejeição automática à idéia do coletor era muito grande. Especulei bastante, perguntei e cheguei a algumas conclusões. Por ser homem, e consequentemente nunca ter usado absorventes internos ou externos, pude olhar a coisa toda de uma maneira um pouco mais objetiva, e gostaria de compartilhar.

Os principais fatores para nem mesmo experimentar o coletor eram: nojo pelo sangue ser guardado e não absorvido, nojo pela não esterilização do coletor antes de colocar novamente e medo do uso causar a proliferação de bactérias.

Pedi para a Jeanne escrever um follow-up falando desses pontos. Ainda assim queria comentar o assunto, não pela rejeição aos coletores, mas pelo que está por trás e é diretamente ligado à sustentabilidade. É aí que entra minha visão de fora, de um homem, sobre o assunto. Se você é mulher, tente por um minuto olhar friamente e não imaginar-se usando nenhum dos dois objetos.

Por que o O.B. é tão normal e natural e o Moon Cup não é? Afinal, o O.B. nada mais é do que, perdoem se parece ofensivo, uma rolha de algodão e plástico. Ok, ok, é mais do que isso, mas pensem: é tão mais bizarro guardar o sangue dentro de um potinho do que guardá-lo dentro de um pedaço de algodão?

A questão aqui não é a discussão absorvente interno X coletor menstrual. É que achamos bizarro utilizar um coletor porque essa idéia é completamente alheia ao que estamos acostumados. Mas um absorvente interno é tão ou mais estranho – exceto pelo fato de que todo mundo usa.

Vêem? Quando discutimos sustentabilidade é preciso questionar. Faz mesmo mais sentido usar uma rolha de algodão e jogar fora ou um copo hipoalergênico, lavá-lo e colocar novamente? Faz sentido comprar um carro, que custa 70 mil reais e ficar parado no trânsito, em vez de guardar grana e usar ônibus (que nos corredores chega a ser 51 minutos mais rápido) e táxi, só porque o carro traz “liberdade”? A liberdade de ficar sentado por horas ouvindo sua música sem dividir seu espaço com outros seres humanos.

O que eu quero aqui é que você, leitor(a), pense sobre as coisas simples da sua vida. É preciso sair do automático, reavaliar aquilo que já é um costume tão arraigado que a gente fica incapaz de perceber o nível de absurdo. Outro exemplo? Por que você toma suco de canudinho, esse pedaço de plástico que você usará por uns 5 minutos e jogará fora e que é completamente desnecessário? Afinal, não é uma vitória quando você deixa de mamar na mamadeira ou usar copos com canudo porque já não baba? Por que essa infatilização?

Eu admito: quando criança eu adorava canudos dobráveis. Achava o máximo. Mas vamos combinar que não faz o mínimo sentido usar depois de adulto? E, se você já pensou nisso e tentou pedir “sem canudo, por favor” </sem sacola, por favor> </sem isopor, por favor>, também sacou como é praticamente impossível fugir a esse hábito.

Tentei algumas vezes pedir suco sem canudo. Mesmo quando o garçom lembra, o “suqueiro” faz tudo no autómatico e já põe o canudo no copo. Aí, o que acontece é que o suco vem com um plastiquinho só para o garçom tirá-lo assim que chega na mesa. Nessas horas, há-de se ser criativo e testar outras maneiras de resolver o problema. Outro dia, ao pedir um drinque no bar, falei que não queria canudo pois “já estou tomando um drinque colorido. O que vão pensar de mim?”.

O pior é que deu certo. Agora tenta explicar que você acha ecologicamente incorreto usar um canudo, ou que você pensa que é uma infantilização desnecessária? Não, as pessoas só reagem bem quando você diz algo que se enquadra no que estão acostumadas a ouvir.

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Em uma notícia correlata, ao sair do Pão de açucar outro dia, com a bolsa cheia de compras, a caixa ficou emocionada, pois eu estava “salvando tartarugas” ao recusar sacolas plásticas. Quem diria! E olha que eu não falei nada, só recusei as sacolinhas. As tartarugas foram por conta dela.

Comments
8 Responses to “O sentido das coisas”
  1. Chan says:

    Um dia uma mulher brigou comigo porque eu não queria levar a sacola plástica. Vou adotar a idéia do canudo também! Abs

  2. bicicletanarua says:

    Eu reduzi muito a qtde de sacolas plásticas simplesmente colocando as compras na minha mochila… e até que, raras exceções, as pessoas gostam disso (é incrível como dá pra conversar sobre isso com as pessoas num mercado 24h às 2h da manhã…)

  3. ayo says:

    É um vicio dos vendedores. Em toda compra já vão enfiando o produto no plástico. Aí eu falo: “não precisa não!”. Alguns parecem que se irritam, outros parecem que ficam tristes, outros não entendem, acham muito estranho, mas é bom irem se acostumando.
    Sobre o canudo eu nunca tinha pensado. Realmente não há necessidade de usá-lo.

  4. rchia says:

    É, a reação mais comum é de estranhamento. A maioria faz aquela cara de “como esse sujeito vai carregar as compras”. E quando você compra pão, que já VEM NO SACO DE PAPEL, e recusa o saco plástico…. putz

  5. Claudia Chow says:

    Sacolas plásticas eu recuso ao maximo, mas os canudos nao servem apenas para tomar o suco, mas tb para agitá-los qdo formam aquelas 2 fases. Ainda nao sei como resolver esse problema em relacao aos canudos dos sucos, se alguem tiver alguma sugestão agradeço.

  6. Vitor Leal says:

    Claudia, basta usar uma colher, não? Desde que não seja descartável, claro.

  7. Giovanna says:

    Acho meio bobo usar o canudo em copo, mas no caso de refrigerantes em lata ou aquelas garrafas de vidro é meio que uma questão de higiene…

    Sempre procuro recusar sacolas plásticas e os vendedores realmente não estão acostumados com a idéia. As vezes passo numa farmácia ou padaria pra comprar um picolé, um chocoate, algo que vou sair comendo ou que posso jogar na bolsa. Pra que a sacola plástica?

    Essa idéia do Moon Cup é legal, eu não achei estranho (mesmo tendo 15 anos ^^).
    Mas acho que precisaria me acostumar com absorventes internos primeiro.
    Aliás, absorventes internos e Moon Cup são até mais atraentes pra mim que ficar usando o absorvente convencional (que faz uma sujeira e parece uma fralda). O problema mesmo é colocar =/
    Mas eu penso em aderir esses hábitos ecológicos aos poucos =D

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