Sobre justificativas

Tenho certeza de que você, lendo este blog, nunca joga lixo no chão. Guarda no bolso até a próxima lixeira, não é? E fumar, você fuma? Leia o relato abaixo. Aconteceu comigo, num dia bem chuvoso, em plena Av. Paulista.

Fumantes são, por natureza, pessoas mal educadas. Você pode ser uma exceção, mas quase todos fumam com outras pessoas no mesmo ambiente (embora isso venha se tornando menos comum), assopram a fumaça nos outros e, pecado dos pecados, jogam a bituca do cigarro em qualquer lugar. Quando vou a um restaurante e alguém fuma, é duro de aguentar. Pô, comer é um prazer olfativo também, e o cheiro forte do cigarro atrapalha todo o processo. Agora vai falar para um fumante para ele, por favor, parar de fumar porque você está comendo. Já aconteceu com você? Pois é.

Mas vamos à história. Cenário: Avenida Paulista, chuva torrencial e pessoas diversas paradas sob uma marquise, tentando não se molhar demais. Senhora termina um cigarro e joga no chão, de um jeito estiloso que só fumantes conseguem fazer. Eu olho para ela, parece ser uma pessoa educada, com quem se pode dialogar. Interpelo-a:

– Boa noite, tudo bem com a senhora? A senhora parece ser uma dessas pessoas que nunca joga um lixo no chão, guarda para levar até a lixeira. Estou certo?

– Sim, sim. Não é legal jogar lixo no chão.

– Então eu gostaria de perguntar: a senhora já pensou que o cigarro é lixo? Que essa bituca que a senhora jogou demora 25 anos para se decompor? Pois é, é verdade. Mas olha, fica tranquila, eu só queria que a senhora pensasse nisso.

– Mas eu joguei no chão porque não tinha onde jogar. Tinha que ter um lugar pra jogar aqui.

– Mas o lixo a senhora guarda.

– Cigarro é diferente, fede, tá aceso.

– A senhora pode apagar no sapato e carregar um potinho na sua bolsa, ela é grande, e deixar lacradinho, né?

– …

– Não se preocupe, não precisa dizer nada. Só queria mesmo que a senhora pensasse nisso.

Senhora sai de fininho  e não diz mais nada.

:::

Você pode ter se reconhecido nessa situação, tanto de um lado quanto de outro.  Não importa mesmo de que lado você está. Se fuma ou não. O importante aqui é prestar atenção nos nossos atos, que podem facilmente passar batido. Pior, tem muitas coisas que fazemos e justificamos, como a senhora em questão disse: devia ter um lugar para eu jogar a bituca. Não, não devia. O problema é dela, o lixo é dela. Só que ela torna problema de todos ao jogar no chão, ou ao reclamar que não tem onde jogar.

Ainda que ela tivesse razão sobre ter um local apropriado para jogar o cigarro, ela não faria nada a respeito, demandando isso. Ela continuaria esperando que os outros resolvessem o problema dela. Essa postura é ruim para todos. Vamos lembrar que era um dia com muita chuva. A bituca dela, o papel do outro, o sofá de um outro, o pneus que o borracheiro da minha rua vive jogando na calçada. Tudo isso se acumula e causa enchente. São nossos problemas. Vamos agir, pessoal.

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Foto cortesia de mauren veras, via Flickr.

Comments
9 Responses to “Sobre justificativas”
  1. Julia says:

    Ótimo texto!
    Eu vivo dizendo que fumante acha que a bituca some no ar, igual a fumaça que ele sopra nos outros..

    O problema é que nem todos os fumantes escutariam a sua crítica construtiva como a senhora da história. A maioria não quer escutar – e muito menos pensar. Reagem com xingamentos, no mínimo.
    Ignorância. Mas o que se pode esperar de alguém que envenena o próprio corpo conscientemente

  2. Claudia Chow says:

    Qta coragem a sua! Alias, acho q vc deu sorte de conversar com uma senhora educada.
    Mas parabens, vc fez a sua parte!🙂

  3. Julia diz: “Mas o que se pode esperar de alguém que envenena o próprio corpo conscientemente”, ótima afirmação.

    Fumante é mal educado e porco, com todo o respeito ao animal.
    Alguns ainda se justificam dizendo que fazem o que fazem, mas é um vicio.

  4. Macaco says:

    hahahaha eu nao sou cinzeiro! adorei!

  5. Sou fumante. E fumante não acha que bituca é lixo. É impressionante, não sei explicar porquê… quando eu me dei conta disso, senti vergonha por todas as bitucas que já joguei no chão. Hoje, quando não encontro lixo, guardo a gimba no bolso mesmo. Fede, mas até aí, cheiro de cigarro já está comigo de qualquer jeito.

    Mas eu fumo com outras pessoas no ambiente, sim. Nunca quando elas estão comendo porque acho uma grosseria e nunca perto de crianças, pq tenho medo de dar o exemplo.

    Agora, vou fazer uma provocação: Você tem carro? Se você tem carro você emporcalha o ar mil vezes mais do que o meu cigarro. E eu sou obrigada a respirar. Será que não tem uma certa histeria com o cigarro e qualidade do ar? Como se o resto do tempo a gente respirasse o ar límpido das savanas africanas…

    Acho que vou continuar fumando perto de outras pessoas, onde me for permitido e onde for devidamente arejado. Não é o meu cigarro numa mesa de bar na calçada que vai estragar o seu pulmão, enquanto centenas de carros e ônibus passam na sua cara.

    E por falar em cara, eu nunca soprei fumaça na cara de alguém. E nunca vi ninguém fazer isso, exceto no cinema.

  6. Julia says:

    Até onde eu sei, o dono desse blog trocou o carro pela bicicleta. Ele tem toda a autoridade para falar da fumaça alheia.

    Fumaça de cigarro incomoda sim. Muito. E já está mais do que provado que fumantes passivos sofrem graves problemas de saúde. É uma questão de respeito não fumar perto de pessoas que não desejam se envenenar com a sua fumaça. E é isso que a maioria dos fumantes não entende – ou não quer entender.

    Com relação ao ar já estar poluído, o argumento é no mínimo fraco. Não respiramos o “ar límpido das savanas africanas”, mas isso não é motivo para o poluirmos ainda mais. Não é porque a cidade já está suja, que estamos liberados a jogar mais lixo nas ruas. E isso você mesma entende, já que parou de jogar suas bitucas por aí…

  7. Vitor Leal says:

    Carolina,
    como a Julia bem colocou, não possuo carro e não pretendo possuir. Ao contrário, ando de bike pra cima e pra baixo, caminho, pego metrô e ônibus. Nesse quesito, a provocação não “colou”.

    Mas eu devo dizer que tenho outros defeitos tantos, sem dúvida. Tem um post em que falo especificamente disso, se você procurar por “pecados ambientais”.

    Quanto a assoprar a fumaça nas pessoas, não acho que você ou qualquer fumante faria por mal. É uma questão da lei de Murphy: a fumaça sempre vai na direção do não-fumante. Como disse a Julia, a fumaça incomoda sim, e não acho que dizer que o ar já estar poluído como defesa seja realmente válido. Seria o mesmo que dizer que se todo mundo rouba muito, vou roubar um pouquinho só.

    Cada um faz aquilo que pode, não é?
    Ab.

  8. Willian Cruz says:

    Ótimo diálogo, fantástico o texto, excelente a foto! Parabéns à Carolina por ser uma fumante consciente por não fumar perto de gente comendo e de crianças. E por guardar as bitucas!

    Mas Carolina, para quem não fuma, a fumaça do cigarro tem um cheiro horrível… Incomoda bastante sim, e não é porque eu seja um não-fumante chato. A fumaça do cigarro me faz tossir, dá uma coceira na garganta que só sai tossindo. E às vezes os fumantes acham que estou fazendo de provocação, que mudo de lugar para fugir da fumaça porque sou chato. Não é, é porque incomoda mesmo.

    Para muitos fumantes isso é difícil de perceber, porque estão muito acostumados com a fumaça. Até entendem que ela incomode quem não fuma, mas fica difícil a eles ter a dimensão de quão grande é esse incômodo.

    Quanto à fumaça dos carros também fazer mal, concordo com você. Tem MILHÕES de escapamentos-cigarro soltando fumaça o tempo todo e a gente não se dá conta justamente porque já está acostumado com o cheiro da fumaça (e também porque ela está diluída no ar, o cheiro fica menor). Quando passei um tempo trabalhando em Florianópolis, toda vez que eu descia em Congonhas e pega a 23 de maio num táxi, eu sentia o cheiro da fumaça nos primeiros dez minutos, depois me acostumava com ela novamente.

    Mas não é porque há problemas maiores que os menores não devem ser resolvidos (ou minimizados), não é mesmo? Como disse o Vitor, cada um faz aquilo que pode. Se eu pudesse fazer com que todo o lixo reciclável do mundo fosse reaproveitado, eu o faria, mas por enquanto o que posso fazer é separar o lixo lá de casa. E vamos seguindo…

    Abraços a todos e, Vitor, parabéns por levantar essa questão em um artigo no site.

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