Ônibus lotado? Culpe o automóvel.

Foto de Paulo Fehlauer

 

Foto de Paulo Fehlauer

 

Você é um dos milhões de habitantes de Sampa que pega ônibus todos os dias? Será que já pegou um coletivo em horário de pico? Se você, como eu, já teve essa experiência, sabe que não é nada agradável. E provavelmente pensou que gostaria de estar em um dos carros do outro lado da bolha, fechados no ar-condicionado e som ambiente. Naquelas confortáveis poltronas de 30, 40, 90 mil reais. Sem ninguém te encoxando, respirando no seu cangote. E já que estamos falando de como é ruim andar de ônibus, porque não pensamos logo num dia de chuva, em que, além de ficar em pé no trânsito, você tem que agüentar aquele bafo quente porque ninguém abre a janela.

Pois é. Se nessas situações você fica put@ com a qualidade do transporte público, é bem provável que esteja bravo com a coisa errada. Boa parte da culpa do ônibus lotado é do próprio congestionamento. Isso porque, por mais ônibus que existam no mundo, se eles ficam parados no lugar, vão enchendo cada vez mais. Pode prestar atenção: assim que o trânsito anda, passam ônibus vazios.

Vamos mudar de modal e talvez fique mais claro o que acontece no trânsito. Você, espero, já pegou o metrô alguma vez. Tente se lembrar de um dia em que estava lá, na estação Paraíso, e chegou um metrô da Linha azul. Rapidamente a plataforma para quem vai para a Vila Madalena (Linha Verde), que estava vazia, se enche. Aí, chega um metrô e a plataforma se esvazia novamente. Esse é o fluxo normal, pensado para sempre desafogar os novos usuários que chegam.

La Calle Inteligente, cartaz de Bogotá

La Calle Inteligente, cartaz de Bogotá

Agora lembre daquele dia em que o intervalo normal, que é de 1,5 minuto a 3 minutos, aumentou para, digamos 8 minutos. Nesse meio tempo, 3 ou 4 composições chegam e mais pessoas vêm da rua. Aí, a plataforma fica completamente lotada e, mesmo que o próximo trem para a Vila venha completamente vazio, ele não conseguirá escoar toda essa gente. Será preciso alguns trens para que isso aconteça.

Da mesma forma, um ônibus preso no tráfego é um alvo fácil para a superlotação. Assim, o problema do transporte coletivo na cidade passa, e muito, pelo trânsito em si. Se não há corredores de ônibus segregados do trânsito normal, não há fluidez e, conseqüentemente, os ônibus enchem. E o mais interessante é, nessas horas, olhar em volta e reparar nos grandes causadores do trânsito: os carros.

Você está dentro de um ônibus lotado com, provavelmente, 60 outras pessoas. Aí você olha em volta e vê os carros com 1 pessoa. São 60 carros no total ocupando 3 quarteirões com 3 faixas. E você, dentro de um só ônibus ocupando 1 faixa de rolamento e pouco mais de 15 metros de comprimento.

Responda em voz alta: quem causa o trânsito?

Faça mais. Olhe para a calçada, numa Av. Paulista, por exemplo, e conte as pessoas. Depois, olhe para a rua e conte as pessoas nos carros. E aí, onde tem mais gente? Quem ocupa mais espaço? Uma via tem a capacidade média de levar 2 mil pessoas em carros, 9 mil pessoas em ônibus, 14 mil em bicicletas e 19 mil a pé. 

Quem mesmo? O automóvel.

Foi mais ou menos assim que eu decidi não possuir um carro. E olha que eu gosto muito de automóveis, como já disse neste post. Era um dia de greve de metrô e eu estava na Van que fazia um trajeto do meu trabalho para a estação Vila Madalena. Por causa da greve, tivemos que ir até a Clínicas e o caminho passava pela Heitor Penteado. Estava tudo parado. Dentro da van, 16 pessoas. À nossa volta, 16 carros com 1 pessoa cada. Tive um insight: o sonho de Henry Ford é impossível. E ali mesmo decidi que possuir um automóvel é um direito, não um dever, muito embora a propaganda e a nossa sociedade exerçam uma enorme pressão para que se pense o contrário.

Abaixo, vídeo-bônus sobre a eficiência de transporte público versus privado.

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Foto do ônibus: cortesia de Paulo Fehlauer via Flickr.

Foto da Calle Inteligente: divulgação da Fundación Ciudad Humana, la organización World Carfree Network y la Alcaldia Mayor de Bogotá.

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Comments
15 Responses to “Ônibus lotado? Culpe o automóvel.”
  1. Bruno Giorgi says:

    Vitor, muito bom seu post e a análise de um dos motivos pelos quais os ônibus ficam cheios!

    Mas não é só isso, tem também a questão do círculo vicioso, pois, se as pessoas utilizassem menos o carro e mais o transporte público além de diminuir os congestionamentos, mais pessoas exigiriam melhorias no transporte público e trariam mais recursos para para essas melhorias. A melhora no transporte público atrai mais pessoas para o mesmo e assim sucessivamente. Mas o que acontece é o contrário, menos pessoas utilizam o transporte público, com menos possoas os recursos para melhorias diminuem, assim diminuem as melhorias e o número de passageiros e aumenta o número de carros que aumenta a lentidão, que deixa os ônibus cheios e desestimula as pessoas a utilizá-los.

    Por isso, penso que para quebrar essa corrente tem que ser tomadas ações de melhoria do transporte público e de desestímulo ao uso do carro, para que mesmo quem quer exercer o direito de ter um carro veja mais vantagem em utilizar o transporte coletivo.

    Acho que é isso.

    []s

  2. Pedalante says:

    Grande Vítor,

    Participei do desafio intermodal de 2008, aqui em SP ( trem e ônibus). O que que constatei ( In loco/Totum) é a existência de uma política pública( de nossos governantes de plantão) de não estímulo ao uso desses modais, diferentemente do que ocorre em Bogotá.

    Como diz o Luddista: vivemos sob a égide da “carrocracia”.

    p.s. Em tempos: no dia do salão do motor, São Paulo, enfrenta seu maior congestionamento no período da manhã ( 130 km) – triste profecia! aguarde dia 19/11 às 19h….

  3. Érika says:

    O problema principal é que a questão é também de valores. Quantos filhinhos de papai a gente conhece, que moram de aluguel indefinidamente, ou moram com os pais indefinidamente, e adiam um financiamento de casa própria em nome de um carro importado do ano?

  4. Vitor Leal says:

    Erika,
    Comprar carro, importado ou não, em detrimento da casa própria, é escolha de cada um. Morar com os pais ou de aluguel também. Mas quando falamos em políticas públicas versus escolhas individuais, devemos lembrar que o Estado deve garantir o direito de que quem vai de ônibus seja tão respeitado quanto quem vai de carro. Como diz Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá, “um cidadão em uma bicicleta de 30 dólares vale o mesmo que outro em um carro de 30 mil”.

  5. Marcia says:

    É fácil falar isso. Se metade das pessoas de onde moro resolvessem sair de ônibus ficariam esperando nos pontos porque não conseguiriam entrar neles.

  6. Vitor Leal says:

    Márcia, quanto mais gente usa carro, pior fica a qualidade do transporte público. Quanto pior a qualidade do transporte público, mais gente desiste de utilizá-lo e passa a usar o carro. Percebe onde vou com isso? Se não usarmos ônibus e pedirmos que melhorem sua qualidade, ela nunca melhorará. Fácil mesmo é arrumar uma justificativa para não fazer nada.

  7. Marcia says:

    Entendo tudo isso. Mas a melhora tem que ser geral, não dá para só falar para deixar o carro em casa e pronto. E também as pessoas não saem 5 da matina para ficar socadas em ônibus porque querem. Já que não tem metrô, ou onde tem se leva 3 passadas para conseguir entrar, tem que aumentar o número de ônibus e trens. Já está insustentável andar assim. Eu ainda acho que as pessoas merecem respeito e andar decentemente nos transportes públicos.

  8. Vitor Leal says:

    Marcia, tenho certeza de que as pessoas merecem respeito e andar decentemente nos TP. Onde você mora para ser tão difícil assim? Sei que pegar a linha vermelha em SP não é fácil. É preciso cobrar, mas tb não adianta continuar sendo parte do problema.

  9. Marcelo Santos Costa says:

    Hj tem ônibus com ar condicionado e TV e na tv passa cenas da novela e na novela um galã de carrão novo(?)…

  10. Bruno says:

    Quando eu era criança pequena, uns 25 anos atrás, o transporte público na minha cidade (Guarulhos) era ruim e não havia tantos carros.

    Quando eu era adolescente, meados de 1992, morava em São Paulo, não tinha tantos carros na ruim e o transporte público era ruim.

    Hoje piorou muito. Não ando de ônibus, raramente de metrô, normalmente de carro e as vezes de bike.

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  2. […] Eduardo Singer, que lembra de um certo banco, ao falar que SP é uma cidade 30 horas, comenta que é “necessário promover o transporte solidário” e permitir que faixas exclusivas para ônibus sejam liberadas para quem dirige com um carona. Confesso que, nesse momento, foi difícil não levantar a voz e proclamar a bobagem que estava sendo dita, mas fiquei quieto, fazer o que, e faço minha crítica aqui. Carona solidária nunca foi nem nunca será solução, é um mero paliativo, vendido por montadoras mas sem resultados efetivos. Pior: é uma péssima idéia tirar ainda mais espaço do transporte público para cedê-lo ao individual motorizado, como você pode se lembrar neste post. […]

  3. […] congestionamentos geram isolamento e estresse, emperram o transporte público, são um grande desperdício de tempo e dinheiro e liberam toneladas de poluentes. Os últimos […]

  4. […] túnel escuro. Se o ônibus permite que vejamos as ruas, o conforto e a pontualidade também estão à mercê do trânsito. E caminhar é muito bom, porque você tem a possibilidade de ver as pessoas, o comércio, a […]



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