(Re)Conciliando o econômico e o social

Foto de Daniele Sartori
Foto de Daniele Sartori

Mais uma da série “Escrevi para a Pós, mas postei aqui”. Este texto foi feito em parceria com a Mariana Brito, em resposta à pergunta “É possível (re)conciliar o social e o econômico?”. Leiam, reflitam, comentem. Espero que gostem.

“Não se pode ter empresas bem-sucedidas em sociedades fracassadas”. Stephan Schmidheiny

Tudo começou em 1964. Na verdade, tudo terminou em 1964. Com o início da ditadura militar no Brasil, deu-se o fim das liberdades individuais no país, e com elas a capacidade de discussão e participação democrática que começava a se fortalecer. Por mais de 20 anos o governo sufocou o pensamento crítico, ao mesmo tempo em que controlava com mão de ferro os diversos setores da vida pública.

Enquanto isso, as empresas se desenvolviam baseadas em políticas governamentais – ou o que o governo de exceção considerava fundamental para a segurança nacional. Quando o país se abriu novamente, havia uma sensação generalizada de euforia pelas liberdades recém reconquistadas. Mas havia também o medo, que perdura, da censura e do controle demasiado do governo sobre a sociedade.

Entra o governo neoliberal de Fernando Henrique Cardoso. Pautado pela minimização da influência do estado na economia, por privatizações e consolidação da abertura econômica. Abertura esta que permite a entrada de bilhões de dólares em investimentos estrangeiros, multinacionais e, conseqüentemente, novos padrões de consumo. A sociedade brasileira deslumbra-se com as possibilidades de um mundo globalizado.

Para Freitas (1), “À medida que as empresas passam a assumir atividades antes desempenhadas pelo Estado, (…) a discrição cede lugar ao papel de novo ícone do econômico, social e político. Agora elas podem assumir o papel de vedetes ou estrelas e explicitar claramente que houve uma mudança fundamental de sua finalidade”.

O recuo do poder público sobre áreas antes controladas cria lacunas que deveriam ser preenchidas pela sociedade civil. Mas o espaço continua vago, a sociedade consome sem se preocupar com a faceta política, e as empresas multinacionais passam a exercer esse papel de “Estado”. É preciso crescer o bolo para depois dividir. O bolo cresce e, com ele, aumentam as desigualdades.

O mundo passa por uma época de pujança econômica e diminuição da influência do estado na economia. Em 2001, a evidência inicial de um modelo que dá poder demais à auto-regulação do mercado: a falência da Enron. É o primeiro grande aviso e o mundo vê a necessidade de criar novas leis e regular o mercado de forma mais restrita.

Citando Domenico de Masi, no Ócio Criativo, “Em 1992, o salário anual de um simples empregado de meio expediente na Nike, nos Estados Unidos, era superior à soma dos salários de todas as moças da Indonésia que no mesmo período tinham trabalhado nas empresas fornecedoras da Nike americana. Nos últimos vinte anos, a Nike transferiu suas fábricas primeiro para a Coréia e Taiwan e, depois, quando os trabalhadores desses países começaram a se sindicalizar, para a China e para a Tailândia, onde os salários são ainda mais miseráveis”.

Logo surgem as primeiras ações do Greenpeace contra a Nike. A opinião pública volta seus olhos para as práticas da empresa, o que inicia um processo reativo de adequação. A Nike passa, aos poucos, a agir de forma socialmente responsável. Mas é importante notar: ela é reativa, não pró-ativa.

Em 2002, Lula é eleito presidente do Brasil. Entre seus projetos, há um enorme destaque para o Fome Zero. A idéia é, em quatro anos, erradicar a fome no país. O mundo volta seus olhos ao Brasil e quer saber se é realmente possível erradicar a fome no tempo estipulado pelo Programa.

2008: cinco anos e R$ 65 bilhões de reais investidos em todos os eixos de atuação do Fome Zero. Os índices de pobreza no país diminuem, mas a fome persiste, ainda que menor. A meta dos quatro anos não é cumprida.

Por outro lado, sete anos depois do caso Enron, a crise americana do subprime contamina os mercados em todo o mundo, e a recessão se avizinha. Em menos de um mês, diversos governos divulgam pacotes econômicos de ajuda a instituições financeiras, que somam cerca de US$ 2,2 trilhões. O governo brasileiro, o mesmo do Fome Zero, anuncia um pacote de R$ 100 bilhões.

A pergunta que não cala é: seria possível a erradicação da fome com um investimento mundial de 2,2 trilhões de dólares? Seria possível a erradicação da fome no Brasil com um pacote único de 100 bilhões de reais? Será que a evolução do IDH brasileiro nos últimos anos (que atinge pela primeira vez o valor de 0,8) é rápida o suficiente? O desenvolvimento econômico trouxe todas as benesses prometidas à população na velocidade necessária? Todos os anos, 13 milhões de crianças morrem por desnutrição no mundo, o número de miseráveis soma 480 milhões e a quantidade de pobres que vivem com menos de US$ 2 por dia chega a 1,4 bilhão.

A questão não se limita a liberar ou não um pacote de 2,2 trilhões de dólares para salvar o capitalismo e as economias mundiais da ruína. Mas se é possível, da mesma forma, criar pacotes de 200 bilhões e erradicar a fome do mundo. Ou investir R$ 100 bilhões no Brasil e acabar com os miseráveis.

É sabido que os resultados de intervenções em prol do social não são tão facilmente mensurados como ocorre no setor econômico, haja vista os montantes financeiros investidos ou a volatilidade das principais bolsas de valores mundo afora. As empresas que hoje se dizem orientadas ao desenvolvimento social estão claramente reagindo a pressões da sociedade civil ou de governos.

Por sinal, a Responsabilidade Social na maioria das vezes é um processo reativo e pautado pela intenção de ganho de imagem, não de agir eticamente. A Souza Cruz, da indústria do tabaco, costuma propagandear (não existe melhor palavra para isso) que não vende cigarro para menores de 18 anos, o que é taxado por ela como Responsabilidade Social. A verdade é que a lei proíbe essa venda, o que torna óbvio que não passa de Responsabilidade Legal. É a era do Greenwashing.

Será possível reconciliar o econômico e o social? Talvez. Mas depende muito mais do lado social da equação do que do econômico. Não serão as empresas a nos salvar. Será a sociedade a cobrar uma postura ética e justa daquele com quem realizam negócios. Há de se lembrar que empresas são feitas de pessoas. Lembrando Erwin Laszlo, em Macrotransição, “Ou a sociedade se reestabiliza, graças à evolução de uma nova mentalidade numa massa crítica de pessoas, ou mergulha de ponta-cabeça nas crises e na anarquia”.

É preciso operar a mudança, a transformação, nas pessoas. Ou numa massa crítica de pessoas, que iniciarão um processo de cobrança do Estado, no sentido de novas leis, e das empresas, no sentido de uma nova postura frente à sociedade.

Voluntariamente ou não, as empresas têm o poder de ser reais agentes de transformação da sociedade. O poderio econômico é capaz de emprestar à sociedade a força necessária para mobilizá-la, engajá-la nessa transformação. Mas é preciso lembrar que são as pessoas, no final, que devem mudar.

O desenvolvimento de um espírito de coletividade, de respeito do espaço público e à participação democrática – proveniente de ONGs, fóruns, conselhos, associações, enfim, tudo o que vier de participação social – pode ser uma solução para que haja uma maior integração entre as esferas econômica e social.

“Uma macrotransição traz transformações irreversíveis: quem as pilota é a tecnologia e quem toma as decisões é a consciência de uma massa crítica de pessoas” (Laszlo). É pelas mãos da sociedade, de um grupo inicialmente pequeno de cidadãos conscientes, que poderá ocorrer a conciliação entre o econômico e o social. Mas isso somente ocorrerá se houver uma mudança de paradigma. Uma reinterpretação do que realmente é fundamental para a sociedade.

É preciso recolocar o humano dentro do homem.

1 – FREITAS, M.E. A metáfora da guerra e a violência no ambiente de trabalho. In: Carrieri, A e Saraiva, A, Simbolismo Organizacional, São Paulo, Atlas, 2008.

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Foto cortesia de Daniele Sartori via Flickr.

Comments
3 Responses to “(Re)Conciliando o econômico e o social”
  1. PEDALANTE says:

    Amiccis,

    Normalmente, faço 3 leituras para comentar um texto. ( a 1ª de conhecimento, a 2ª de ‘estranhamento’ e a 3ª para afirmar/negar o texto – abro uma brecha na regra, no caso desse texto.)

    Gostei do texto, como ponto de partida para uma reflexão maior. Algumas considerações dialogais:

    – Pq a referência ao Masi – mais lido aqui, do que na Itália?
    – Pq citar o gov FHC, como neoliberal? Um doutorado recente em Cipol ( UNESP), afirma, que ele aplicou políticas neoliberais, mas, nem por isso pode ser considerado neoliberal – conforme suas referências metodológicas, será que o mesmo se aplciaria ao gov. LULA?
    – Pq trabalham com o IDH, e não tb com o GINI? Seria legal a leitura dos textos do Márcio Pochanm – UNICAMP/IPEA
    -sobre a chamada Resp. Social das empresas, tb uma dissertação de mestrado, na PUC, de um administrador de empresas, muito boa: ele comprova, que as empresas no Brasil – principalmente os bcos – gastam mais no mkt de divulgação das ações , do qeu propriamente em ações dita socio/ambientais responsavéis.
    – Sobre 1964…seria legal, uma pesq. em direito constitucional ( 1946); a hist. política brasileira no período do pós guerra…as liberdades e garantias individuais, sempre estiveram sobre a ameaça das baionetas( vejam ai na GV, farta doc, do período)

    Para por aqui, para podermos continuar essa prosa…

  2. A essa hora da noite não irei ler tão complexo post…

    Mas recomendo uma leitura sobre o “Green New Deal” No treehugger!

    http://www.treehugger.com/files/2008/07/green-new-deal.php

    Grande abraço e parabéns pelo BOB!😉

  3. Marcia Oller says:

    Desculpe não me ater ao texto pois, na verdade, estou a procurar uma grande amiga Ivany Sartori, cuja filha chama-se Daniele. É vc por acaso? Se for , por favor, escreva-me dando uma direção para eu a reencontrar. Super obrigada. Márcia Oller

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