O bom, o feio e o malvado

Rodrigo David

Foto: Rodrigo David

Depois de um longo e tenebroso inverno, aqui estou, mais uma vez a postar no nosso novo e querido blog. Escolhi o nome do post baseado em um Western italiano de 1966 que fez um bruta sucesso: Tinha o Clint Estwood no auge e a direção genial de Sergio Leone. Mas o nome do post podia ser o nome alternativo do filme aqui no Brasil – Três Homens em Conflito.

Mas toda essa introdução cinematográfica foi para lembrar de um dos percalços pelos quais, nós, pobres mortais, passamos na tentativa de exercer uma cidadania consciente. É quando fazer a nossa parte não é mais só reciclar o nosso lixo, ou usar meio de transporte alternativos. É quando surge a necessidade genuína de compartilhar isso com o nosso próximo, mesmo que o nosso próximo não seja exatamente uma pessoa do nosso círculo de amigos e familiares. O próximo aqui é no sentido cristão. Ou filosófico. O próximo aqui é o outro.

E nessas andanças pela vida percebi que o outro anda por aí com uma grande crise de identidade, com personalidades múltiplas até. O outro anda terceirizando suas responsabilidades com a cidade, com a sustentabilidade, com o trânsito…Parece uma crise de percepção aguda: uso o carro até para ir na padaria, mas não entendo como o trânsito é caótico. Jogo minhas guimbas de cigarro no chão e reclamo (e muito!) de como a cidade anda suja. Fico indignado com a falta de educação, mas furo uma filazinha quando encontro meus amigos que chegaram mais cedo e já estou quase chegando no guichê.

O cidadão bom de repente se tranforma. E a culpa é do outro, descobri perplexa. Cheguei a ouvir essa semana: Por que não posso jogar esses papéis no chão? Já está tudo sujo mesmo. Ou o famoso: todo mundo faz isso. E o mais indignante: já que você está catando o meu papelzinho, aproveita e limpa a calçada inteira..

Então a barbárie coletiva permite, autoriza o nosso comportamento descompromissado com aquilo que é de todos. Triste conclusão. E a pessoa que tem a atitude de se comportar de forma diferente é o chato, o xerife do mundo, o dono da verdade e outros termos que são usados por nós, quando pegos num pulo, num deslize ético, de educação ou de puro esquecimento mesmo. Vida que segue.

Metáfora por metáfora, deixo aqui embaixo uma listinha de filmes e livros que não tem muito a ver com eco-cultura, mas são bem bacanas quando o negócio é lembrar que o outro, ah esse outro, muitas vezes sou eu.

– Blindness, de Fernando Meirelles: Os cegos, originalmente criados por Saramago, reorganizam uma sociedade de barbárie baseada naquilo que não podem ver. Filmão

– A invenção de Morel, Bioy Casares: O diário de um náufrago e sua paixão por uma turista da ilha onde ele encontra abrigo falam de como nossas ações se repetem indefinidamente, quando a consciência é perdida. 90 páginas de deleite literário.

– A revolução dos Bichos, de George Orwell: Livrão travestido de livrinho. Uma metáfora da revolução russa que desce a lenha nos porquinhos stalinistas e de como dá merda quando a gente resolve terceirizar as nossas responsabilidades.

– A madrugada dos mortos, Zack Snyder: Os únicos vivos estão presos dentro do shopping. E os Zumbis, enlouquecidos querem entrar. Metáfora contra o consumismo, conta com um elenco incrível e cenas históricamente sanguinolentas.

– Os idiotas, Lars Von Trier: Um grupo de amigos resolve dividir a mesma casa com o objetivo de promover ações onde se passam por deficientes mentais.

– Meninas Malvada, Mark S Walters: Com roteiro de Tina Fey, a genial atriz e redatora do Saturday Night Live e da série 30 Rock, o filme adolescente conta a história de uma mocinha vinda da África e educada em casa que é engolfada pelos códigos adolescentes e selvagens das meninas populares.

:::

Foto cortesia de Rodrigo David via Flickr.

Comments
2 Responses to “O bom, o feio e o malvado”
Trackbacks
Check out what others are saying...
  1. […] de protestos mundo afora e o ser fechado na sua bolha, vivendo de fazer birra, colocar a culpa nos outros e dizer que o que importa são as emissões históricas – mesmo que agora estejamos emitindo […]

  2. […] Sobre Justificativas Ônibus lotado? Culpe o automóvel O bom, o feio e o malvado De ponta-cabeça Desencaixotando […]



Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: