Não existe isso de jogar fora

Cerca de um ano atrás escrevemos um post entitulado “Saber jogar fora”. A idéia, na época, era mostrar um pouco sobre reciclagem e sobre como é importante saber o que fazer com materiais como óleo de cozinha e pilhas.

Só que chegou a hora de falar a verdade, nua e crua: jogar fora, meu povo, não existe. E este é um dos principais motivos pelos quais estamos na situação em que estamos hoje. Antigamente, o planeta “agüentava” tudo. Era infinito. Não havia como sujar tudo porque sempre dava pra fugir um pouco mais pro oeste. O rio pegava nosso lixo e levava pra longe: o mar. E todo mundo sabe que a Terra é planeta água (ao menos na superfície).

Mas aí, povoamos praticamente o mundo inteiro. E nos reproduzimos muito, muito rápido. Pense em um aquário (você já deve ter tido um). Eramos 3 lebistes que vivíamos nesse grande aquário e achávamos que nunca teríamos como sujá-lo. Aí fomos reproduzindo tanto que, agora, somos 300 lebistes nesse pequeno espaço. Deu pra entender o drama?

Isso implica que o mito de jogar fora tem que ser completamente esquecido. A Lei de Lavoisier disse, lá no século XVIII, que na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Como a Terra é finita, o que fazemos não é jogar fora. Simplesmente pegamos resíduos (lixo não é um bom nome para isso, pois dá a impressão de algo sem qualquer serventia) e jogamos pra fora de casa. Aí, passamos o dia fora e trazemos o que? Pãozinho? Não, resíduos pra dentro de casa. E começa tudo de novo. Não tem fim.

Mas qual o problema dessa forma de ver as coisas? É simples: como as pessoas acham que podem jogar coisas fora, elas também não pensam duas vezes na hora de se livrar de coisas indesejadas, nem mesmo consideram o destino delas. Se você tinha algo inútil, atrapalhando sua casa e jogou fora, então tem espaço em casa – e pode comprar outra coisa. Como você acha, inadvertidamente, que realmente aquilo que você tinha antes sumiu pra sempre, então não tem problema. Exceto que isso significa aterros sanitários cheios, recursos naturais sendo utilizandos como se fossem – qual a palavra? – infinitos. É o que os americanos chamam de Out of sight, Out of mind, ou fora da vista, fora da cabeça, numa tradução capenga.

Você foi lá, fez o número dois, e depois? Dá a descarga. Seus dejetos vão embora e você sabe que eles estão resolvidos, não precisa nem se preocupar. Alguém vai cuidar deles. Só que eles nem sempre têm pra onde ir. Nem sempre alguém resolve o problema que você, muito provavelmente, deveria ter que resolver. Tem um papel no seu carro? Joga na rua, aí não suja o seu carro (só que a rua é sua, sinto dizer-lhe. O que é público, eu repito, é seu!).

Sinto dar-lhe um banho de água fria (ou talvez você já soubesse de tudo isso). Mas o fato é que é fundamental que todos saibamos com o que estamos lidando. Que o que você compra ou joga fora tem consequências. Então pare pra pensar na hora de comprar. Reduza o consumo. E pare de jogar as coisas fora como se não tivesse problema. E não use a sujeira dos outros como desculpa – ou você gostam quando alguém vai na sua casa e cospe no chão? A Pombinha branca não gosta não.

De qualquer maneira, aviso desde já: os próximos posts não serão para quem tem coração fraco. Eles poderão mexer com os brios de muita gente. Isso porque está inaugurada uma nova sessão: a Pílula Vermelha. Sejam bem-vindos ao deserto do real.

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Foto cortesia de enricopalombaro via Flickr.

Comments
3 Responses to “Não existe isso de jogar fora”
  1. Silvia says:

    O povo precisa mesmo sair da Matrix e enxergar a realidade…

    Vou passar esse teu post pro email da escola das meninas, eu tô tentando ampliar os projetos ambientais de lá, vamos ver no que dá.

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  1. […] o nosso Quintal é o mundo. E logo mais não vai ter tapete suficiente pra esconder tanto lixo. Como diz um amigo meu, o futuro vai julgar nosso tempo como um momento muito parecido […]

  2. […] Tá, tá, colocou fórmula matemática, complicou tudo. Mas, na real, é bem simples. Precisamos usar cada vez menos recursos para produzir “coisas” porque a população está crescendo cada vez mais e consumindo cada vez mais. É como eu falei lá atrás, neste post sobre não existir jogar fora. […]



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