Notas de um Freecycler

Há cerca de 6 meses, resolvi conhecer “ao vivo” o que é o Freecycle. Para quem não conhece, Freecycle é uma iniciativa criada em 2003 por um americano do Arizona, Deron Beal. Ajudando uma ONG que reciclava materiais em sua cidade natal, ele percebeu que sempre apareciam objetos perfeitamente úteis, que acabavam indo para a reciclagem, ou mesmo o lixão, sem necessidade. De início, eles começaram a procurar pessoas para doar nas diversas entidades da cidade, mas logo ele teve a idéia de criar uma lista de e-mail em que esse material fosse doado de maneira simples e rápida. Estava criada a primeira lista Freecycle.

Como eu dizia, há cerca de 6 meses resolvi entrar no grupo da região de SP, para testar como funcionava, na prática, tal grupo. De início, havia mto poucas mensagens e a coisa parecia meio fria. De repente, foi esquentando e, após uma reportagem na Folha, o número de usuários dobrou. Com eles, vieram pedidos bizarros, como carros, pianos (de uma marca específica!) e muito mais. Também veio um pouco de irritação dos usuários antigos e desvirtuamento dos novos. Até que algumas vozes experientes começaram a colocar ordem na casa e pedir paciência aos antigos e moderação aos novos.

Mas nem é disso que eu vim falar. Na real, queria contar minha experiência no Freecycle. Cerca de 3 semanas atrás, uma pessoa ofereceu uma estante, à qual respondi prontamente. Acertado que eu receberia o objeto, combinei dia e hora para buscar. Só que minha cabeça me traiu, já que a cunhada estava em casa, e acabei esquecendo do horário. E a minha cara? Bem, a outra pessoa foi compreensiva e agendou novo horário, que honrei com louvor. lol. O fato é que essa estante aí ao lado tá quebrando um galhão e eu comecei a pensar sobre o que é o Freecycle pra mim. Depois de tanta gente pedindo doações, tanta gente oferecendo, cheguei à conclusão que esse grupo funciona suprindo pessoas de coisas que elas precisam, mas por algum motivo ainda não vão ou podem comprar. Eu podia comprar uma estante? Podia. Mas eu sei que essa estante será algo provisório e que, num futuro ainda incerto, vou acabar substituindo a menina. Até lá, a estante quebra um galhão e eu economizo não o dinheiro, propriamente dito, mas recursos naturais. É uma espécie de não-consumo consciente. Quando finalmente decidir qual estante e onde ela ficar, comprarei uma nova. Aí essa doação vai entrar na dança novamente.

Nesse meio tempo, acabei doando um scanner que também estava encostado lá em casa.

O lance é que sou contra ficar comprando objetos que mais pra frente você não usará mais, ou quebrarão devido à obsolescência programada (entenda o que é no glossário, ao fim do post). Então eu evito comprar coisas novas, não só para evitar o consumismo, mas também para exercer um consumo consciente. Se compro o objeto ou produto errado, são recursos naturais utilizados de forma ineficiente e desnecessária. Para ser sincero, minha casa inteira é basicamente mobiliada por doações, no caso da família mesmo. O fogão antigo, a geladeira velha, a mesinha da avó. A média de idade é grande – para ter uma idéia, a mesa da sala tem quase 30 anos, e a TV nem lê NTSC. Por sinal, a mesma mesa está à venda na Tok&Stok. É tudo de segunda mão e, a maioria, funciona bem.

Consumir de forma consciente é comprar o que é também comprar só o necessário. Mas não é só isso. É evitar também o xingling, porque se você tá pagando muito barato, é porque certamente alguém foi exposto a metais pesados/tem trabalho infantil/meio ambiente foi poluído, etc. É o que chamamos de externalidade (Link da wikipedia não muito bom. Se alguém tiver outro melhor, aceito sugestões), ou seja, os custos que não estão embutidos no preço/custo de algum produto (e a sociedade paga como um todo).

Mas tudo isso é assunto pra outro post. A questão é que o Freecycle, ou outras redes de trocas e doações, são maneiras interessantes de acabar com a descartabilidade programada, transformando o R do reciclar no R do reutilizar. E acaba fazendo a gente usar o R do repensar também.

Se você quiser participar, mande um  e-mail para SaoPauloFreecycle-subscribe@yahoogroups.com. Mas utilize com parcimônia, hein?

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Glossário

Obsolescência Programada – Esse termo surgiu para designar a maneira como os produtos são desenvolvidos, hoje, para quebrar ou ficarem obsoletos em uma questão de anos ou até meses. É o caso, principalmente, de celulares e computadores. Ao invés de criarem produtos para durar, dessa maneira diminuindo a pressão sobre recursos naturais, as empresas desenvolvem para que você queira trocar logo, aumentando seus lucros. Pense no iPod: Steve Jobs (presidente da empresa), já disse que você deveria comprar o tocador de MP3 da Apple pelo menos uma vez por ano.

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O logo do Freecycle é uma marca registrada, hein?

Comments
3 Responses to “Notas de um Freecycler”
  1. Sílvio says:

    Muito legal teu blog. Essa idéia é muito boa. Eu já tinha me interessado por um movimento chamado de vida compacta, tava até me preparando pra apresentar isso pro pessoal da bicicletada. Agora me interessei também por essa lista. Valeu.

  2. Silvia says:

    Os textos agora estão vindo sem o autor, né? Gosto de me dirigir ao autor pelo nome…😉

    Acho muito interessante a idéia do FreeCycle, pois é uma forma de você ter certeza de que a sua doação está sendo usada por alguém que precisa daquilo. Às vezes, a solução é pôr junto com o lixo reciclável ou encaminhar para doação sem saber ao certo o que acontecerá com aquilo.

    Esse grupo de São Paulo engloba o estado todo ou só a capital?

  3. Vitor Leal says:

    Olá, Sílvia. Realmente, só notei agora que esse tema não coloca o autor, então vou colocar na mão mesmo.lol.
    Quanto ao Freecycle, é para todo o estado, mas o pessoal parece estar organizando subgrupos. Entre lá.
    Ab

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