O surgimento da ecotech

SunVocê percebe que as coisas podem dar certo quando começa a ler artigos como este. Com vocês, em sua primeira colaboração, Gilberto Pavoni Junior, consultor de estratégia digital, jornalista e dono do blog Techboogie:


“A consciência ambiental está florescendo no mundo da tecnologia da informação. Isso ocorre um pouco tarde em relação a outros setores, é verdade. Mas, nunca é tarde para se lançar o corporate environmentalism no mercado.”

O surgimento da ecotech
Por Gilberto Pavoni Junior

A Sun é mundialmente conhecida pelos servidores potentes e pela tecnologia Java. No entanto, a maior novidade apresentada pela empresa nos últimos meses é o executivo Dave Douglas, cujo inusitado cargo sintetiza toda uma mudança no mundo dos negócios da tecnologia da informação. Ele é vice-presidente de Eco Responsibility e se reporta diretamente ao chief technology office, Greg Papadopoulos e ao executivo principal da empresa, Jonathan Schwartz, um dos primeiros a apontar, em uma nota no seu blog há cerca de três anos, a ecologia como força de mudanças no setor.

Douglas, que já é chamado no mundo da TI americana de green-czar, tem uma única missão, semear a consciência ambiental pela empresa. Funcionários, parceiros, produtos e mesmo a marca estão na sua mira. Provavelmente ninguém escapará dessa onda verde na Sun. “Tenho certeza que há um trabalho imenso a ser feito”, escreve em seu blog, um local cheio de elogios a qualquer companhia que adote uma posição ecológica, seja AMD ou Intel, HP ou Unisys.

DD, como gosta de assinar, é uma evolução natural no pensamento da Sun e um exemplo de como a onda verde está agindo dentro das empresas de TI. Se há três anos a preocupação de Schwartz, na época chefe de operações da Sun, era risível para seus colegas, hoje ela é vital para os negócios.

Um estudo da Jupiter Research mostra que a geração dos 13 aos 17 anos, que freqüenta a Internet constantemente, os on-line teens, é praticamente um exército ambientalista. Cerca de 40% desses jovens se dizem conscientes sobre os problemas do aquecimento global, da reciclagem e da necessidade de energias alternativas.

Há até uma tropa-de-choque nesse exército, 15% dos pesquisados se consideraram “hardcores greens”, ou seja, verdadeiros radicais.

Isso não é mais uma onda, é uma tijolada na cara. Quem se recusa a enxergar isso de bom grado pode ser forçado a abrir os olhos pelos ativistas mais radicais. Uma notícia no Washington Post de agosto mostra bem isso. Gareth Groves teve seu Hummer atacado por hardcore greens. Entre vidros quebrados, pneus furados e outros sinais de vandalismo, a frase “for the environ”, foi rabiscada na pintura do carro. O Hummer é a SUV da moda, uma usada como a de Groves custa fácil 38 mil dólares. O veículo que chega a fazer 3km/litro foi usado para transmitir uma mensagem a Groves. Será que ele entendeu?

Muitas empresas já estão conscientes sobre os riscos que a falta dessa percepção sobre o ambientalismo envolve. Mais do que ter carros riscados, eles temem perder negócios nos próximos anos pelo simples fato de serem tachados como inimigos do verde.

O novo datacenter do Citigroup, a ser inaugurado em 2008 em Frankfurt, vai ser todo certificado pelas regras da LEED (Leadership in Energy and Environmental Design) e deve economizar 11 mil toneladas de emissões de dióxido de carbono e ser modelo na economia de energia, consumindo 75% menos. Segundo a empresa, o custo de US$ 232 milhões é muito parecido com o que se o centro de dados fosse construído sem essas preocupações. O prédio está na conta dos US$ 50 bilhões que o Citi planeja gastar com estratégias ambientalistas nos próximos 10 anos.

Os datacenters foram os primeiros alvos do executivo principal da Sun quando ele alertou sobre como a ecologia tinha ligação com a TI. Não é por acaso, máquinas como as da Sun são essenciais nesses centros, constituindo boa parte do faturamento da empresa. Além do mais, a cada vez mais feroz concorrência oriental não tem como manter os preços baixos oferecendo esse diferencial ambiental. Ou seja, é uma preocupação pra lá de digna, mas também é puro negócio.

As empresas que têm a marca ligada às novas tecnologias parecem entender isso. O Yahoo tem como meta ser neutro em emissão de carbono até o final de 2007. A notícia foi adiantada pelo co-fundador da empresa, David Filo, também em seu blog, em abril. Se isso acontecer, seria equivalente a desligar a eletricidade de todas as casas da região de São Francisco por um mês, ou tirar 25 mil carros da rua, segundo as contas do próprio Filo.

Datacenters estão na mira também da EPA Energy Star, o programa da Agência de Proteção Ambiental americana. Um relatório recente aponta que o uso de energia dobrou nos datacenters entre 2000 e 2006. O consumo deve dobrar novamente até 2011. Há uma preocupação crescente nos Estados Unidos quanto a esse tipo de gasto energético. Se as projeções se confirmarem, o governo daquele país irá gastar US$ 740 milhões a mais do quepoderia somente com energia nesses centros de dados.


Questões relevantes

A tecnologia pode ajudar a economizar energia e a diminuir a poluição, mas também precisa se preocupar com seus próprios processos que nunca foram pensados sobre esse aspecto. O estudo da EPA aponta que há benefícios indiretos na evolução do e-commerce e põe esse como um aliado na busca pela eficiência energética. “Comprar na Amazon.com, no e-Bay e utilizar o internet banking faz reduzir o consumo de gasolina e diminui os engarrafamentos”.

Mas, essa face boa é rapidamente esquecida quando se lembra que um parque de servidores pode ter o impacto ambiental de uma pequena cidade ou que para se fazer um computador de 17 quilos se gasta quase duas toneladas de material na fabricação (muito disso é só a água para controlar o aquecimento do chip nos processos fabris) – geladeiras e máquinas de lavar consomem duas vezes seu peso na fabricação. Isso sem falar na poluição causada pelo descarte da máquina sem reciclagem.

A indústria de tecnologia não é verde. Isso precisa mudar. E rápido, porque o mundo já está mudando.

Dizem alguns especialistas que a tendência para os bens de consumo duráveis é eles serem comercializados com uma tabela parecida com a que tem em alimentos. Só que em vez de calorias estarão lá todos os aspectos sobre o impacto ambiental do produto.

Já não é sem hora. Computadores e eletrônicos de uma forma geral contém uma série de elementos de valor que são literalmente jogados no lixo. O descarte de ouro (usado nos contatos dos circuitos), prata, paládio, cobre, estanho, gálio, índio e mais uma dezena de metais caros está pressionando o preço dessas commodities. Por outro lado, materiais como o plástico e metais pesados são venenosos para o meio-ambiente.

Não bastasse as questões de legislação e econômicas, David Card, vice-presidente da Jupiter Research alerta para a importância dos green teens na economia futura. Eles são líderes nos círculos sociais que frenquentam. Mais importante ainda, são formadores de opinião e cheios de energia. Uma pesquisa da Arizona State University apontou que o boca-a-boca nesse grupo é extremamente forte e o que uma pessoa considerada líder faz ou diz é imediatamente assimilado como padrão de comportamento.

A indústria de TI está cercada pela ecologia. Não há como fugir de suas responsabilidades.

Não dá para arriscar que esse público green teen odeie, em pouco tempo, a tecnologia porque ela não se apresenta como ecologicamente correta e ainda tem a cara do século passado. Um estigma desses não seria nada agradável em um tempo no qual os consumidores podem acessar quilos de informações, na Internet, sobre consumo de energia e impactos ambientais de produtos e serviços.

Será muito trágico se a indústria que promoveu essa evolução na troca de idéias e conhecimento da humanidade for relegada por que não soube ouvir a inteligência das multidões.

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Gilberto Pavoni Junior é jornalista, consultor de estratégia digital, cool hunter e possui o blog Techboogie sobre tecnologia e negócios.

Foto da Nasa. (Não, não é o logo da Sun Microsystems)

Comments
2 Responses to “O surgimento da ecotech”
  1. ney says:

    muito obrigado,me ajudou muito!!!!

  2. miriam says:

    Oi Pavoni,

    muito bom!
    será que podemos linkar nossos Blogs?
    e ainda conversar sobre TI Verde?
    obrigada.
    abraços,

    Miriam Vasco

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